Um bolo para tia Pureza

Tenho uma tia avó muito peculiar. A começar pelo nome: Pureza.
No meu imaginário infantil, tia Pureza existia para fazer bolos. Quando eu tinha lá meus 7 ou 8 anos e ia passar férias de verão na casa da minha avó, lá estava tia Pureza e sua pontualidade vespertina em iniciar os trabalhos açucarados na cozinha. Minha avó, uma mulher ativa que enviuvou-se cedo, trouxe os irmãos para morar consigo desde então. Tia Pureza nunca se casou… escolheu dedicar-se a cuidar da mãe, bisa Luíza, a qual se decidiu por deitar numa cama e dela nunca mais sair, após a morte do biso Nestor - escolheu morrer de amor.
Sendo assim, para mim, Tia Pureza existia para ser e também para fazer bolos. E só.
E não eram bolos elaborados ou trabalhoso. Eram aqueles bolos corriqueiros de casa de vó, geralmente brancos, feitos para se comer no café da tarde ou após a sopa da noite.

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[dê play aqui na trilha sonora sugerida por Alessandra de Carvalho]
Hoje de tarde, resolvi aproveitar o tempo livre extra para estrear a batedeira que foi presente, há uns meses. Mistura para bolo pronta, instruções no saquinho soando facilidade, três ovos inteiros, um pouco de leite e manteiga.
Colocar tudo isso para rodar foi até divertido. E fácil. Depois, foi a hora de untar a fôrma e nela despejar toda a massa.
O forno já estava pré-aquecido aos seus 180 graus. Meti a fôrma cheia lá, selecionei 30 minutos no timer e fui ler. Aos 20 e poucos, o cheiro já tomava conta da casa… como naquelas tardes, na casa da vovó, em que eu ficava à beira da mesa, só esperando minha hora de lamber os dedos com o resto da massa que tia Pureza batia à mão.
O cheiro era aquele. Já a cara…
Quando ascendi a luz do forno e vi que o bolo só não tinha entrado em erupção por misericórdia divina, soltei uma gargalhada mental cheia de memórias. E foi aí que decidi dedicar a tia Pureza o primeiro bolo que não fiz.
Para a próxima tentativa, já aprendi que não se deve encher a fôrma com a massa, já que ela precisará de espaço para ‘crescer’ :P
